sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Na voz da Ema

Quando a luz da cozinha acende, eu sei que a minha dona acordou. De imediato, coloco as minhas patas dianteiras nas portadas e abano a minha cauda. Ela sabe que o faço para mostrar que estou feliz. E estou, posso ir dar-lhe umas lambidelas, para além de saber que ela vai dar-me a refeição da manhã.

O Tejo também se aproxima. Gosto dele, mesmo quando ele perde a paciência comigo. Nessas alturas, ele rosna e mostra bem os seus caninos. Então coloco o meu focinho em cima da sua cabeça para o acalmar. Ou lambo-o até o pelo ficar todo molhado. Ele não o faz, nem à dona.

Quando o meu pequeno-almoço acaba entro de imediato em casa. A dona já está na sala a beber café, que cheira bem, e a fumar um cigarro, que cheira mal. O Tejo costuma vir atrás porque demora mais tempo a comer. Ele é velhote, podia ser meu avô, mas por vezes brinca comigo.

Quando a dona está a beber leite, fico por baixo dela à espera que ela entorne alguma coisa; quando chega a casa ao fim do dia vou cheirá-la para ver se esteve com outros cães. Não gosto nada disso, ela só tem de gostar de mim. Já basta o Tejo e os filhos dela andarem à sua volta.

Amanhã sei que ela vai estar em casa mais tempo. Perguntam-me como mas um cão não é parvo. Os dias dividem-se na hora do sono, a apanhar o calor do sol, e nas restantes em que ladramos para os outros cães para lhes chamar a atenção. E ao fim de umas cinco vezes, a dona está, a casa está cheia e eu tenho mais mimos.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009


Sei que cada um tem o seu mundo onde todas as imagens são reflectidas em espelhos diferentes, os diversos ângulos de luz esbatem os contornos criando objectos distintos. Mas há mais mundos para além desses, mundos imaginários, outros paralelos e ainda aqueles que resultam do cruzamento das linhas do nosso cérebro. Tenho medo deste último, as estradas deixam de ser estradas e as pessoas tornam-se transparentes, vendo-se para além destas. Não há o sol e mar nem tão pouco a terra onde pousamos os nossos pés. Formam-se personagens que apenas os nossos olhos as vêem e as palavras surgem das esquinas desenhando ideias que mais ninguém ouve. Somos levados a gestos incompreensíveis para os outros e a necessidade de contacto humano desaparece nas frinchas de um qualquer muro. É um mundo colorido onde existe a libertação total, sem as amarras quotidianas e as pressões dos outros sobre nós. Mas não é verdadeiro e um dia desperta-se de novo sem sabermos quanto tempo por lá andámos ou o qual foi a posição do no nosso corpo. E passa a não haver palavras para explicar de onde viemos, cria-se mais um segredo que não pode ser partilhado. Depois, em momentos incautos, vêm e vão imagens desses tempos, recordando-nos que as peças falham, as engrenagens que nos formam têm uma compostura própria de viver. Por isso, quando me perguntam o que tenho feito, não digo nada. Cresço por dentro e tento viver na minha linha paralela às vivências dos outros.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009


É difícil não pensar enquanto se caminha em direcção ao trabalho. São sempre os mesmos dez minutos em passo apressado, é sempre o mesmo trajecto e as pessoas com que me cruzo. A mulher sem-abrigo que empurra um carrinho de compras enquanto vai praguejando em voz alta, os homens das obras do Cais do Sodré que está sempre em remodelação e até os polícias de trânsito não variam. Não sei se para eles não passo de mais uma transeunte que escorre do barco como tantos outros ou se as minhas feições também já se encontram marcadas.

Todos os dias espreito a árvore pejada de pombos. Evito-a, a probabilidade de me sujar é tão grande e não quero iniciar o dia irritada. O semáforo parece estar sempre fechado quando o alcanço e sigo o passeio para atravessar a estrada fora da passadeira. Não perder tempo em esperas inúteis, cada minuto do dia é um bem precioso.

No meio destas deambulações tão minhas, tenho dúvidas que sejam importantes para as dividir. Não passam de pormenores em que medito como se alcançasse alguma filosofia inovadora – somente a abstracção a caminhar para que tente reter os pormenores diários que compõem a minha vida.

E chego ao trabalho onde vou a correr beber um café, admiro um gato que, graciosamente, sobe e desce os telhados da baixa pombalina, até que o dia recomece.

Não vivo embrenhada em emoções e pouco tenho a contar sobre as semanas que passam a devorar a minha existência. Somente tenho leves toques do que observo mas sei-me feliz.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009


Estavas lá mas eu não te via. Os sons distantes, o branco que envolvia os meus olhos. E nada sentia, nem a friagem do dia, o corpo deitado ou o toque na minha pele. Sabes, por vezes eu não sou eu, antes um vácuo perdido nas malhas do tempo onde nada existe nem eu própria. A ausência de som, o desconhecimento da vida. E fico perdida até que o fio ténue do regresso volte a aparecer.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009






É de manhã que o sol devia nascer mas não apareceu, o céu cinzento perpetuou a noite. Escavo a madrugada de olhos rendidos à paisagem escondida tentando não sentir a angústia provocada pela chuva. Não há. Não há alento, não há credo no começo, não há vontade de iniciar os passos que trazem o movimento de mais um dia. E ensopo as botas, escorre água pelo cabelo, perco o sentido do avanço. Não nasceu, fico no limbo do início não despoletado.

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Pausa


Nem todas as histórias terminam bem ou por vezes o fim dado é a melhor forma de acabar. Depende sempre da perspectiva. Com o desenvolvimento do “Tempos desordenados”, seria sempre difícil que “ela e o Bruno” ficassem juntos. Há quem não prescinda de uma situação confortável e recusam-se a viver um futuro que seja uma incógnita, há quem realmente pense que pode alterar a sua vida mas no fim descobre que não tem coragem para isso.

Infelizmente são muitos os casos semelhantes. Nos tempos actuais a mulher, graças à sua independência financeira, passou também a desenvolver jogos emocionais com outros. Já são raros os que fazem bodas de ouro, o amor eterno. Mas a esperança reside sempre em nós.

O “Tempo desordenados” falha na perda de pormenores necessários mas seria impossível desenvolvê-los no blog.

Como fico mais exausta do que a maioria das pessoas, vejo-me obrigada a fazer uma pausa de tempo indeterminado. Curta ou longa, não sei. Gosto de ter tempo para a escrita e para vos ler, algo que não tem acontecido.

Talvez os meus neurónios sofram uma transformação e a energia venha. Vem sempre, só é necessário esperar. Nestes quatro ou cinco anos que ando por aqui tenho tido esses altos e baixos. Não somos todos iguais.

De há uns tempos para cá tenho tentado publicar um romance. Por duas vezes tive essa oportunidade mas por motivos pessoais, não avancei. Talvez consiga, talvez não, a escrita de um romance esgota-nos.

Dos que me visitam, principalmente aqueles de longa data, conheci alguns. Outros tive pena que não acontecesse mas devido ao meu feitio, nunca propus o tal café ou jantar que aproximam as pessoas. Deixo-vos o meu email. Nunca o fiz antes mas na realidade, porque não?

Até breve, espero. Deixo-vos um Miró, adoro a sua obra.


sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Tempos desordenados VI (cont. 5)

Bruno apareceu no seu hábito regular desde as férias. Os tempos andavam calmos e reflectia-se nela. Já não se revoltava tanto com o que se passava na Câmara pois aprendeu que de nada lhe valia e a associação cada vez mais ganhava forma. Mesmo os impulsos andavam mais comedidos. Ainda escondia nas suas roupas os objectos dos outros e guardava-os no armário mas deixou de ter a fixação de o fazer a toda a hora.

- Hoje propuseram-me ir trabalhar para a AMI durante um ano – disse Bruno, casualmente.

Ela olhou-o intrigada.

- E aceitaste?
- Não respondi de imediato mas tenciono, claro.
- Claro? E nós? Como ficamos?
- É só um ano, depois regresso. É uma boa oportunidade para desanuviar deste país. Irei para África.

Ela calou-se. Um silêncio penetrou na sala ocupando todo o espaço. Até que ele interrompeu.

- Sabes, em Angola vive-se de modo muito diferente. As pessoas acabam por ser mais livres, mais desinibidas. Mesmo nas relações entre homens e mulheres.
- O que queres dizer com isso?
- Um amigo meu esteve lá durante um tempo. Teve uma amante, uma mulher apaixonadíssima por ele. Viveram juntos. Ele era casado. Sofreu quando regressou.

Ela ficou perplexa.

- Sofreu? Como pode dizer isso se sabia perfeitamente a sua situação matrimonial?
- Um homem não escolhe as suas paixões e ele apaixonou-se.
- E não largou a mulher.
- Claro que não, porque deveria? Cá tinha tudo, uma casa, uma família, filhos, um emprego estável.
- Também pensas assim?

Ela não tinha a certeza se queria ouvir a resposta.

- Não se pode perder de repente tudo o que se conseguiu alcançar.
- E nós?
- Nós estamos juntos, não estamos? Vivemos cada dia que passa. Não é isso que é importante?

Teriam os pássaros esquecido que se não erguerem as asas não conseguem voar? Ou talvez as árvores duvidassem que a sua força reside na forma como deixam espraiar as suas raízes ao encontro do seu alimento. Mas as avestruzes teimam em esconder a cabeça na terra não observando. Na realidade o nome destas provém do grego e significa camelo parado. Por isso não voam, não alcançam outras dimensões. E enquanto encontra-se na natureza todo o tipo de ambiguidades, ela pensou que existem umas que não se identifica. Ou o dia actual terá, realmente, maior força do que os desconhecidos tempos que ainda não vieram?

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* ainda atrapalhada para vos visitar. Espero conseguir dentro em breve e o meu pedido de desculpas.